Defronte ao meu passado, sinto percorrer pelo meu corpo um ar frio e gélido, como uma brisa que anuncia a tempestade que virá, arrebatando tudo o que vir pela frente. E eu penso que te amo a cada dia menos. Ou sequer te amei. Bom, sei que teus olhos procuram o amor nos meus olhos indiferentes e teus lábios me sorriem, como se procurassem reflexo nos meus lábios ásperos e irredutíveis. Sinto dizer que o passado não pode simplesmente bater à minha porta e esperar que eu lhe dê moradia digna ou sequer lhe abrigue. O presente já é outro. É o futuro que outrora queria que se concretizasse para que o sofrimento fosse mais ameno.
Tu se indagas, querendo saber, angustiadamente, onde foi parar todo aquele sentimento incondicional. Então, vos digo que o tempo nada mais é que o desamparo que amarga os corações dilacerados e sofridos. Ele expurga toda a dor e torna rígido o coração outrora tão frágil. Às vezes, é necessário sucumbir para se viver.
Não me ponha olhos duvidosos, não deixe que teus lábios procurem os meus; eles irão se decepcionar com a altivez dos meus. Esqueça que me amas, porque há muito esqueci. O que vês diante de ti é o fruto daquilo que cultivastes por anos a fio, sem sequer aperceber-se.
Não queiras me fazer olhar para trás mencionando lembranças; elas me foram efêmeras e enterrei-as fundo em algum lugar.
Minhas palavras serão frias. Tão frias que tuas lágrimas parecerão quentes nas noites chuvosas. Tu se agarrarás ao travesseiro, procurando relembrar o calor dos meus braços. Tu irás sofrer metade de cada sofrimento, até que não suportarás mais. Então, ligarás arrependida lastimando. O tempo passou, o relógio não trabalha olhando para trás. A minha vida ficou funcional, tanto que já não posso perder meu tempo lastimando não poder ter você. Porque sempre que pôde, fostes embora com toda simpatia das minhas palavras escritas nos bolsos. Levastes de mim, em papéis e lembranças, tudo o que ainda havia de afeto e amor por ti. Fizestes de mim o âmago.
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