domingo, 13 de março de 2011

Monólogo de um bastardo

Eu? Diga-me senhor quem sou eu? Se me conheces tão bem, a ponto de julgar-me com um olhar de desdém.
O que meus trajes vos falam? O que minha aparência rota e esquelética vos diz? Que estou perecendo de um mal incurável? Que me desfiz de todo amor próprio e esperança que tinha?
Não! Não senhor. Sou teu filho. Sou fruto da tua irresponsabilidade, da tua negligência. Vítima da tua crueldade.
Sou aquele que vós deixaras à mercê do sereno, das terríveis chuvas... Um pequeno ser indefeso.
Agora, que me ponho diante de ti, aos trapos, sujo e faminto, tu me julgas como um mendigo, um fracassado... E eu vos digo, com esses olhos marejados, que sou teu filho, mesmo que negues com tamanho escárnio, sou teu famigerado.
Como senhor não reconheces teu próprio legado? Vê! Vedes esses olhos! És como se estivesses a enxergar-se num retrato. E eu lamento, ó Deus, ter sido esse o único presente que me destes. Porque eles viram todo o meu passado... Memórias que eu me arrependo profundamento de ter gerado.
É senhor, tu fostes e é meu pai, mesmo que tenhais me negligenciado, me renunciado. E eu sou e sempre serei teu filho, mesmo depois de tê-lo matado.
Não... Não temais por vossa vida. Não cabe a mim determinar a sua partida. Apenas confesso que esse foi meu desejo por anos a fio.
Agora me despeço, posto que o mundo está cada vez mais frio e eu sinto que Ela está a me chamar.
Tentei ser; não fui. Levantei; caí. Lutei; perdi. Te encontrei PAI, agora eu sei que devo partir.

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